A mercearia centenária “Loja da Preciosa” Ilda da Silva Ferreira - Loja da Preciosa

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Numa das nossas incursões de bicicleta por Estarreja, ao passar na Rua Dionísio de Mouro, uma casa chamou-nos atenção. No largo um edifício tinha a fachada coberta por fotografias a preto e branco, podemos vislumbrar por uma porta aberta, o ambiente no interior e ali funcionava uma mercearia tradicional. Pegamos logo na máquina para captar umas fotos do e afastamo-nos um pouco, ao que uma senhora logo exclamou, “O homem pode entrar que ninguém lhe faz mal”.

Ilda da Silva Ferreira - Loja da PreciosaEntramos e foi como se tivéssemos viajado numa máquina do tempo para meados do século passado, paredes forradas com papel, prateleiras em madeira com mercearia espalhada, balança mecânica, entre outros adereços do tipo museológico.

A proprietária Ilda da Silva Ferreira, com os seus 96 anos movia-se vagarosamente por detrás do balcão, com ajuda duma muleta. Na altura estava a servir duas clientes antigas, andavam às voltas com encomendas de bolas de queijo, depois duma colorida algazarra entenderam-se.

Já tínhamos muitas horas de bicicleta nas pernas e quisemos saber se nos podiam fazer umas sandes com queijo, não havia pão, o queijo era só para as encomendas, mas por artes mágicas e diligências da Maria Cardoso, mulher com 71 anos, tudo apareceu. Aquelas simpáticas pessoas fizeram questão de nos oferecer o lanche, mas melhor do que isso foi a sua simpatia e boa disposição. Enquanto retemperávamos energias, lá foram aparecendo os clientes do copito do vinho, que a Ilda Ferreira enchia de um garrafão.

Esta idosa, já ouve mal e entende muitas vezes as coisas com ajuda da amiga Maria Cardoso, mas ainda faz as contas à mão. É natural do Esteiro do Bunheiro e teve dois filhos, mas um pareceu numa infelicidade rodoviária, fazia precisamente 55 anos no dia anterior. Neste ponto da conversa notou-se numa mãe e esposa as marcas da vida e foi rapidamente buscar dois retratos que pousou saudosa no balcão.

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Disse com orgulho que fez a quarta classe com distinção e ainda guarda religiosamente o diploma do Professor Ramos. Queria ir estudar, mas a mãe não deixou, o pai muito cedo deixou de viver com a mãe a não participou na sua educação.

A mercearia tem mais de um século e já era dos seus sogros, o nome porque é conhecida é uma lembrança da sua falecida sogra. Depois da sua morte ela assumiu a sua gestão, já tem mais de meio século. O seu marido foi motorista e enviuvou há cerca de 34/36 anos. Na sua casa vende mercearia avulso, peixe e vinho, disse sobre a modernidade, “Não sei se os tempos modernos são bons ou maus”. Disse gostar deste serviço e “Enquanto eu poder estar aqui, estou, criei aqui os meus filhos.”

Antigamente tinha muitos clientes, mas os hipermercados deram cabo do negócio. Disse ainda fiar às pessoas que conhece, embora já lhe tenham ferrado vários calotes. O livro dos fiados só ela sabe onde se encontra.   

Sempre presente durante a nossa narração, a Maria Cardoso, natural de Gondomar, é uma das clientes mais antigas da casa, mas acima de tudo é uma das amigas da Ilda porque já vive em Estarreja há mais de 50 anos. A idosa nos últimos anos vai pernoitar a casa do filho, durante o dia são as amigas que vão olhando por ela. E como o tempo passa depressa, pediram-nos para nos irmos embora para ela “fechar a tasca”, que o filho deveria estar a chegar. Uma coisa a Maria Cardoso tem a certeza quando a Ilda viajar para outras paragens, esta mercearia também fecha as portas.

Nota: As imagens que a fachada do edifício da mercearia ostenta, pertencem à fotógrafa Camila Watson, uma das artistas convidadas da edição 2017 do festival Estau – Estarreja Arte Urbana, que visa criar uma espécie de “museu de arte a céu aberto” em Estarreja.

 

 

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