Rostos de Albergaria-a-Velha - parte um João Tavares

Rostos de Albergaria-a-Velha - parte um

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A equipa do Ondas da Serra andou a percorrer dois trilhos em Albergaria-a-Velha mais concretamente o PR1 – Rota do linho e PR2 – Rota dos três rios, tendo conhecido as aldeias de Ribeira de Fráguas, Vilarinho de São Roque, Telhadela, Palhal e alguns dos seus habitantes.

Nestes trajetos não podemos ficar indiferentes às pessoas com quem nos cruzamos porque infelizmente não são muitas já que o interior está votado ao abandono e esquecimento. Mais do que falar com as pessoas queremos levar-lhes um pouco de calor humano tendo esta sido uma das viagens mais emotivas que fizemos. Diz o ditado que um homem não chora, mas infelizmente chora e alguém da nossa equipa colocou o dedo na ferida dizendo “É a solidão”. Mas também tivemos alegres surpresas, pela primeira vez encontrarmos duas jovens alegremente a caminhar que nos deram os seus testemunhos e temos finalmente nesta rubrica rostos das novas gerações, bonito era que o interior tivesse mais gente jovem.  

  

  
 

Manuel Assunção

A dada altura do PR1 em Vilarinho de São Roque, fomos encontrar junto a uma ramada um homem equipado a rigor que tinha acabado de sulfatar a vinha. Em conversa ficamos a saber que se chamava Manuel Assunção, tem 70 anos e está reformado. Passou cerca de 40 anos a trabalhar em França na cidade de Paris no ramo da pintura e decoração de apartamentos.

Agora com mais tempo livre reparte a sua vida entre os dois países, regressando a Portugal cerca de três vezes no ano. Nesta altura do ano fica cerca de dois meses para tratar da sua pequena vinha e esperar que os cachos de uvas amadureçam para fazer o seu verde vinho. Mais do que tratar das uvas disse com a voz embargada que o faz por uma questão sentimental porque a coisa que o seu sogro mais lhe pediu foi para não deixar morrer as vinhas.

Sente-se a sua amargura quando diz que o povo abandonou as terras, talvez por esta razão não queira que as da sua família também sejam votadas ao abandono, além daquela também tem um pinhal, um eucaliptal e três leiras.

Antes de continuarmos o percurso Manuel Assunção fez questão de afirmar algo que nunca disse ter ouvido falar na televisão que é o contrafogo. Porque aquelas áreas que arderam (Pedrogão) poderiam ter sido evitadas se os bombeiros tivessem essa formação e material especifico. Porque segundo ele o que é perigoso no fogo é o vento.

Na sua terra já deflagrou um incêndio com aquelas caraterísticas. Se por exemplos 10 bombeiros tivessem máquinas apropriadas para colocar fogo à frente do incêndio poderiam evitar a sua propagação. Deu como exemplo o monte que tínhamos em frente e que estava separado do vale por um caminho em terra batida. Se o fogo lavrasse nesse monte e os bombeiros fossem colocados nesse caminho, poderiam fazer um contrafogo que caminhasse na direção do incêndio levando à sua extinção por falta de matéria combustível. Aqui em Portugal disse ser proibido fazer contrafogo e se um bombeiro o fizer arriscasse a ir preso.

Na sua aldeia já ouve grandes incêndios, o ano passado um deles começou em Vale de Cambra e chegou a Janarte tendo ardido uma área muito grande. Contou que um ano veio de férias em agosto e o fogo começou a lavrar em Janarte e já estava a chegar a Vilarinho de São Roque. Era costume antigamente tocarem a sineta da Igreja para pedir ajuda num acto que se denominava “Chamada ao fogo” e como acontecia outrora toda a gente veio acudir.

Perto do campo de futebol de Janarte acenderam um contrafogo e outras pessoas ajudaram com ramos a empurrar as labaredas para dentro do mato. Desta forma conseguiram queimar cerca de 15 metros para dentro do caminho, quando o fogo desceu a encosta parou naquele local porque não tinha já nada para queimar. Se não tivessem feito isso o seu lugar poderia ter sido todo queimado.

E assim terminou a conversa, o Manuel Assunção entrou para o seu veículo e nós continuamos a caminhar com algumas coisas para pensar, como o contrafogo.

 

 

Teresa Martins (Lado esquerdo do ecrã)

Finalmente encontramos malta novo e gira nas nossas caminhadas, aconteceu em Vilarinho de São Roque onde duas jovens caminhavam junto ao rio e não podíamos deixar passar esta oportunidade sen falar com elas. No começo acharam estranho aparecerem pessoas com máquinas fotográficas e de som do meio do nada e quererem conversar com elas. Infelizmente temos que lhe dar razão pelas reservas iniciais porque no mundo atual existem pessoas com intenções muitas vezes questionáveis. Depois de lhes ter sido explicado o que era o “Ondas da Serra” perderam a vergonha inicial e prontificaram-se a falar connosco. Vamos lá a ver se cumprem a promessa e fazem gosto no nosso facebook e se tornam umas visitantes assíduas do nosso site.

Teresa Martins, tem 16 anos de idade e habita na aldeia de Vilarinho de São Roque. Esta jovem é estudante de humanidades e quer seguir a carreira militar na Força Aérea, demos uma pequena ajuda porque um dos membros da nossa equipa foi militar contratado desta força há mais de duas décadas na Academia da Força Área em Sinta e BA3 Tancos, como Cabo Amanuense.

Afirmou que em comparação com a cidade este local é muito mais tranquilo e relaxante

Raquel Oliveira

A colega da Teresa Martins chama-se Raquel Oliveira, tem 17 anos de idade, não é residente naquela aldeia mas em Coimbra e estava a passar uns dias de férias em casa da amiga. Disse ser estudante de artes, pensando seguir alguma área do design que ainda não decidiu bem. Demos-lhe a conhecer que o Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro tem um curso de designer muito bem reputado e os alunos tem aulas nas “catacumbas”, quem lá estuda ou estudou sabe a razão deste sinistro nome.

Esta jovem quer seguir artes porque terá porventura uma sensibilidade apurada por isso conferenciou gostar do local por ter muita natureza e ser muito bonito.

 

 

João Tavares

A dada altura da caminhada o silencio foi quebrado pelo barulho duma roçadeira. Num vale com muitas potencialidades mas fracamente cultivado fomos encontrar devidamente equipado João Tavares, com 69 anos, usando capacete e óculos de proteção. Este agricultor reside em Telhadela e está reformado de França onde trabalhou numa cerâmica.

Ainda é do tempo das famílias numerosas, sendo ele o mais velho de 13 irmãos, onde oito são raparigas, felizmente até à data estão todos vivos.

Também passa o seu tempo dividido entre Portugal e França embora no Verão passe mais tempo na sua aldeia. Quando o encontramos andava a tratar das suas terras porque não as quer ver a monte. O trabalho que estava a realizar de limpeza de ervas permite no próximo ano plantar tremoços. Se não o fizesse a erva iria crescer demasiado e produzir sementes que iriam tornar mais difícil o trabalho de as erradicar.

Atualmente parte da sua família está em França onde teve três filhos, tendo um já falecido, contando com sete netos. O filho está em França e a sua filha em Portugal.

Também referiu que está tudo ao abandono e os governantes não ajudam.

 

 

 

Leiam também os nossos artigos sobre:

  • PR1 - Rota do Linho em Vilarinho de São Roque, artigo;
  • PR2 - Rota dos três rios - parte um, artigo;
  • PR2 - Rota dos três rios - parte dois, artigo;
  • PR2 - Vida de Inseto, artigo.
  • Rostos de Albergaria-a-Velha - parte dois, artigo.
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Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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