sexta, 21 julho 2017 00:32

António Poças – Diácono e escritor

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António Carvalho Teixeira Poças nasceu em Moreira do Castelo, Celorico de Basto, no dia 27 de outubro de 1945. Aos 11 anos de idade foi viver para Moçambique e aí permaneceu até novembro de 1975. Em Ovar todos o conhecem por diácono Poças. (Em 26 de abril de 1992 foi ordenado diácono permanente, estando a celebrar as Bodas de Prata ao serviço da comunidade católica).

Jornalista Fernando Pinto - O António trabalhou no Banco Nacional Ultramarino. Como é que lhe surge a vocação de diácono? 

ANTÓNIO POÇAS - Desde jovem fui sempre uma pessoa muito ligada à Igreja. Andei no Seminário, estudei num colégio religioso, e ficou sempre a minha apetência pelo estudo teológico. Regressei a Portugal, em 1975, por causa da independência de Moçambique. Ainda fiquei como cooperante do Banco, mas vim embora porque de facto as condições políticas e sociais não eram as melhores. Sempre fui uma pessoa que respeitou muito a liberdade dos outros, mas também gosto que respeitem a minha. É uma história longa, que vou ter de encurtar quando falarmos um pouco da minha ida para África. Respondendo à sua pergunta, quando cá cheguei senti necessidade de retomar os estudos na área da Teologia e das Humanísticas, e então inscrevi-me no Centro de Cultura Católica do Porto, onde fiz um curso de Teologia durante três anos. Mais tarde, quando o D. Júlio Rebimbas resolveu restaurar o diaconado, decidi candidatar-me ao Diaconado Permanente. Os estudos demoraram quatro anos, e em 26 de abril de 1992, ou seja, há 25 anos, foram ordenados 18 diáconos...

É diácono na Paróquia de São João de Ovar... 

Antes de ir para São João estive aqui em Ovar e também em Sever do Vouga, no Arciprestado, durante três anos, a colaborar nas Paróquias de Pessegueiro do Vouga, Paradela do Vouga e Couto de Esteves. Em São João, o pároco Vítor disse à comunidade, uma semana antes, que eu ia fazer 25 anos de diaconado, e no dia 31 de abril, depois da cerimónia na Sé do Porto, fez aqui uma pequena celebração. Eu fiz a homilia e esse dia foi recordado com simplicidade.

Que rumo vai seguir agora que acaba de comemorar esta etapa da sua vida? 

Enquanto estava a ouvir a sua pergunta pensei numa coisa que disse Homero, autor de "Ilíada" e "Odisseia". Dizia o poeta que o mais importante numa viagem não é a meta mas sim o caminho... Tenho 71 anos e vou a caminho dos 72. Vivo cada dia como se fosse o último, como se cada momento fosse determinante para a minha vida. Eu sempre dei valor às pequeninas coisas. Sou capaz de me sentar no chão e de ficar a observar as formigas a depositarem as sementes nos montinhos, à entrada dos formigueiros. Delicio-me com um espetáculo desses! As grandes reformas da Igreja vão ter de começar por aí, pelas pequenas coisas... Aliás, o Papa Francisco diz que não devemos julgar as pessoas previamente. Quando faço a homilia procuro olhar para as pessoas, ver a reação delas, e vou corrigindo a rota, como se costuma dizer...

O balanço que faz é positivo?

Diria que estes 25 anos têm sido muito bons para mim, no plano pessoal e também creio no plano eclesial. Há uma coisa que eu tenho procurado tornar consistente na minha vida, que é a de manter o compromisso de continuar a olhar para as pessoas como seres humanos. Aprendo a ser humilde, a servir, nunca a ser o protagonista, e essa aprendizagem que vou fazendo não é fácil. Perfeito, só Deus...

A  família de um diácono aceita de bom grado esta forma de vida?

No meu caso, também houve que fazer aí uma aprendizagem. A minha esposa e os meus oito filhos sempre me apoiaram. Casei com a Laura, em Moçambique, no dia 30 de maio de 1969. Sou casado há 47 anos e tenho uma relação muito boa com a minha esposa, aprendi a escutá-la, a ficar em silêncio, a não responder... Mas a princípio havia dificuldade em conjugar a minha ausência...

Nunca pensou em desistir?

Pelo caminho tenho encontrado pedregulhos, alguns bem grandes, mas nunca me passou pela cabeça desistir, porque eu penso muito na pessoa de Cristo. Nós temos de ter Cristo como referência, sempre... Mas com  muito diálogo e com muito amor tudo se consegue ultrapassar. É por isso que a mulher de um diácono tem de autorizar, por escrito, que o marido seja ordenado. Ela é preparada, é-lhe dito que vai ter de fazer algumas cedências. Estive agora em Viana do Castelo a apresentar o meu último livro, depois de o ter feito na Biblioteca Municipal de Ovar, e a minha família, quer nas minhas atividades de escrita quer nas do diaconado, tem sido os meus grandes estimuladores. Acreditam em mim, têm a mesma fé.

Que serviços um diácono presta à comunidade onde trabalha?

Nós, diáconos, só não podemos presidir à Eucaristia, celebrar a Missa e confessar, mas celebramos o Batismo, o Matrimónio, fazemos funerais e pregamos... Um diácono tem de ser mestre, perito no ensino da Bíblia, da palavra...

Sempre gostou de escrever?

Os meus professores de português sempre reconheceram que eu tinha jeito, mas foi cá em Portugal, no jornal "João Semana", que comecei a publicar os meus textos. Gosto de Literatura. O 1.º livro que editei foi "O Feitiço". Lembro-me que o Fernando, na altura, foi uma das alavancas, uma das pessoas que me motivou a publicar este romance sobre a guerra colonial. Depois lancei o de poesia, "A Palavra que me Inventa", e agora este 2.º romance, "Entre a Lagoa e o Canal". Este último é uma viagem a Moçambique e também um tributo à África do Sul, país que deixou marcas nos moçambicanos de então, porque vivíamos numa política de vizinhança e de convívio. Convido os leitores a lerem este meu livro.

Foi para África ainda menino...

Fomos no navio "Pátria", na época em que o Salazar tinha mandado construir colonatos no rio Limpopo. O meu pai, Armindo Poças, e a minha mãe, Piedade Pinto, regressaram a Portugal tinha eu 14 anos. Fiquei lá sozinho... Aquilo era um mundo novo para mim! Estudei no Seminário de S. Pio X, Colégio Pio XII, dos irmãos Maristas, e Liceu Salazar, onde conclui o 3.º ciclo do ensino secundário. Queria ser piloto da Força Aérea, mas, como tinha problemas de vista, não entrei. Gostava de voltar  um dia a Moçambique, mas, quando for, vou de avião [risos]. Texto e fotos: Fernando M. Oliveira Pinto

 

 

«Quando o homem fica dependente de tabus, deixa de ver a enorme beleza que existe no mundo,
para além da sua pequeníssima janela. Nunca julguemos um homem ou uma mulher só porque é diferente de nós.
Quem se atreve a dizer que tem a exclusividade da verdade e a razão do seu lado?  (...)"»
 
("Entre a Lagoa e o Canal", de António Poças)
 
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Lida 1168 vezes Modificado em sexta, 21 julho 2017 02:48

Autor

Fernando Pinto

Fernando Manuel Oliveira Pinto nasceu no dia 28 de junho de 1970, em Ovar. Jornalista profissional, fotógrafo e realizador de curtas-metragens de vídeo. Escreve poesia e contos. A pintura é outra das suas paixões. Colaborador do "Ondas da Serra".

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