O projeto de investigação e a abertura do Museu da Chapelaria
Este projeto começou a ganhar asas ainda a Fábrica Industrial de Chapelaria estava a laborar. Com o seu encerramento, em 1995, arrancou o projeto de investigação, bem como o de recolha de peças, não só desta empresa mas também de outras indústrias do concelho. Foram efetuados contactos com antigos operários chapeleiros das empresas que fecharam as suas portas, mas que na época ainda estavam em funcionamento, com o objetivo de ser criado um museu relacionado com esta atividade, porque este tipo de indústria faz parte da identidade dos sanjoanenses. "É costume dizer-se nesta terra que o difícil é não encontrarmos, nas famílias, alguém que não tenha trabalhado no ramo da chapelaria ou do calçado", referiu Joana Galhano.
A indústria chapeleira – Passado e presente
O município tem registos que esta indústria remonta ao início do século XIX – já que a primeira fábrica artesanal surge em 1802 –, mas terá sido a partir de meados do século XIX que se dá a sua forte expansão, com métodos ainda tradicionais e artesanais, sendo a produção efetuada em pequenas fábricas e oficinas.
António José de Oliveira Júnior, fundador da Empresa Industrial de Chapelaria (1914), criou, em 1891, a primeira fábrica sanjoanense com processos mecanizados, vindo a dar um novo alento a este ramo industrial. Com a evolução do negócio e a necessidade de expansão para um edifício maior, o empresário adquiriu o terreno onde construiu a Fábrica Nova, a Empresa Industrial de Chapelaria. Refira-se que esta foi uma das primeiras empresas do concelho a ter eletricidade privativa, sendo a maior e a mais importante fábrica de chapéus da Península Ibérica.
Com a criação desta fábrica surgem muitas outras que também se desenvolveram nos primeiros 20 e 30 anos do século XX. Este desenvolvimento fez com que São João da Madeira passasse a ser um grande centro produtor chapeleiro, sendo o único concelho onde ainda se produzem chapéus de feltro. "Somos considerados uns dos melhores produtores a nível mundial nesta área. Com a evolução histórica, os fabricantes especializaram-se num nicho de mercado de qualidade e não de produção em massa", adiantou Joana Galhano.
A produção do feltro
O feltro é um tecido fantástico, produzido a partir de fibras naturais (pelos de animais). Normalmente, é utilizada lã, pelo de coelho, de lebre e de castor. A lã é utilizada no fabrico do feltro mais económico e o pelo de castor é o que tem melhor qualidade.
Na sua formação, que dispensa os teares, são utilizadas as seguintes três técnicas: pressão, fricção e água quente. Este processo combinado permite que as fibras se juntem e cruzem de forma a criar uma massa compacta, dando origem ao tecido conhecido por feltro. "Este tem como características principais o facto de ser extremamente maleável, sendo resistente à água. É por todas estes motivos que estes chapéus podem ser usados no verão e no inverno, principalmente por aquelas pessoas que não gostam de guarda-chuvas", referiu Joana Galhano.
Empresa Industrial de Chapelaria
Relatos de antigos operários referem que nesta empresa chegaram a trabalhar cerca de duas mil pessoas, e que esta produzia chapéus de feltro, palha e pano. A mesma fabricava também calçado, as famosas sapatilhas Sanjo, cuja produção não conseguia, por vezes, satisfazer as encomendas dos clientes.
Antigamente, nestas grandes empresas, fazia-se a produção completa do chapéu, desde o tratamento da matéria-prima, produção de feltro, acabamento e comercialização. Hoje, o processo é o mesmo, mas está repartido em três grandes indústrias, existindo uma única empresa habilitada a trabalhar os pelos, a “Cortadoria Nacional do Pelo”, localizada nesta cidade, e que foi criada por decreto do governo, após ter sido realizado um estudo para reorganizar esta indústria.
A empresa FEPSA é a única produtora de feltros a nível nacional. Muitos dos chapeleiros, saídos das empresas que fecharam as suas portas, fundaram as suas micro ou médias empresas, continuando a trabalhar de forma muito artesanal, modelando o chapéu à mão, tornando, por esse motivo, o chapéu num produto único.
O chapéu está na moda
Antigamente, o chapéu tinha um papel identificador de classes e profissões. No passado recente, toda a gente usava chapéu. No túnel, junto à entrada do museu, existe uma fotografia que mostra um grupo de homens do início do século XX, num comício republicano, desconhecendo-se a sua localização exata. Naquela época, ninguém saía à rua sem chapéu, porque era uma peça obrigatória do traje, fosse de homem, mulher ou criança. Segundo Joana Galhano, hoje "o chapéu não está em desuso, até pelo contrário. Prova disso é o facto de o museu ter um posto de venda e de se verificar o aumento das vendas, principalmente nos chapéus de senhora. Por outro lado, o chapéu começa também a ser usado por questões de saúde, para prevenção dos raios UV, na altura do Verão, devido aos cancros e melanomas associados."
Espólio do Museu
O processo de recolha do espólio foi efetuado de várias formas: alguma da maquinaria, ferramenta, produtos e chapéus vieram da antiga Empresa Nacional de Chapelaria, que se conseguiram salvaguardar. Também foram doadas algumas máquinas por outras empresas do ramo e por particulares, porque todos querem ver as suas memórias preservadas.
Pessoas ilustres no Museu
O museu foi inaugurado em 22 de junho 2005, pelo Presidente da República da altura, Jorge Sampaio, e esposa, que doou um chapéu ao museu, e desde essa data tem sido visitado por alguns ilustres, como é o caso de Lídia Franco, atriz apaixonada por chapéus.
Visitas guiadas
Dependendo dos períodos, existem sempre bastantes ofertas, como é o caso das visitas guiadas (que podem ser temáticas e exposições multitemáticas). A exposição de longa duração do museu retrata o processo industrial da manufatura do chapéu, devido à característica marcadamente industrial do espaço, podendo ser acompanhada por antigos operários, que vão contando histórias do tempo em que laboravam.
Em 2016, o Museu da Chapelaria foi visitado por cerca de 25 mil pessoas, sendo um dos quatro que existe na União Europeia, para além do Musée du Chapeau, em Chazelles-sur-Lyon (França), da Fábrica do Borsalino, Alessandria (Itália), e do Hat Works Museum, em Stockport – Manchester (Inglaterra).
Pode consultar os programas oferecidos, em http://www.museudachapelaria.pt/pt/visitar-o-museu
Leiam também os nossos artigos sobre uma antiga funcionária desta industria, "Deolinda Silva | A pequena dos chapéus" e "O calçado português em São João da Madeira".
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Antiga fábrica “Empresa Industrial de Chapelaria” – São João da Madeira
Antiga fábrica “Empresa Industrial de Chapelaria” – São João da Madeira
Monumento “Unhas Negras”, instalado no pátio do Museu da Chapelaria. Falta uma das esculturas do monumento que foi furtada e recuperada pelas autoridades encontrando-se em reparação.
Reunião de republicanos (local desconhecido)
Receção
Interior do museu
Turistas da Noruega: Anne-Lise e Helge Gorrisen
Turistas da Noruega: Helge Gorrisen
Conjunto de duas máquinas relativas à produção dos feltros de lã. Marca Oscar Shimmel - 1914
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batedor: aqui era através de porrada das correias a bater o chapéu que o pó saia, agora não, agora tem um aspirador que tem uma ranhura onde passa o chapéu, o operador está ali e é aspirado o pó. António Resende, empresa Fepsa, Feltros de Portugal, S.A.
Máquinas
Máquina para feltros de lã. Misturadora de lã.
Máquina
a gente era tudo máquinas de costura(...) a de cozer virolas e pespontar era uma máquina normal(...) a de balenar era uma máquina que só fazia aqule trabalho, a de por debruns também era(...), Maria Helena Ferreira Lino, ex-operária da Empresa Indústrial de Chapelaria
eram 32 chapéus por dia(...) [primeiro era] a fita, e depois da fita já ia para outros lados, a carneira já era botada noutra máquina, já não era nada com a gente, outras botavam o forro, cada uma fazia uma coisa (...), Maria isabel Soares, ex-operária da empresa Vieira Araújo
Máquinas de costura Singer
o trabalho de costura de chapéus é, nós estamos sentadas numa mesa vem os chapéus dos homens já prontos e nós estamos a botar uma fita por fora do chapéu, por exemplo, Maria Joaquina, ex-operária da empresa Vieira Araújo
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O meu trabalho (…) foi para o departamento de pessoal (…) tratava de todos os assuntos, entradas e saídas do pessoal, o registo de vencimentos e fazia outros trabalhos inerentes (…) como o acompanhamento de faltas, descontos, Euclides dos Santos Resende, ex-empregado da Empresa Industrial de Chapelaria
(…)era sempre primeiro escriturário(…) nunca mudei dessa categoria(…) quem participava ao seguro era eu, desde espetar uma agulha a caída do telhado (…)acidentes na via publica, Euclides dos Santos Resende, ex-empregado da Empresa Industrial de Chapelaria
Fotografia de Manoel Vieira Araújo. Imagem oferecida ao mesmo em dezembro de 1955, pelos funcionários da firma Vieira Araújo & Companhia, Lda
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Máquina de afinar abas e copas: trabalha-se só com a lixa, só se usa lixa nisto(…)é lixar a copa para acabamento…o chapéu antes de ir afinado vem com todo o pelo, vem todo gadelhudo e depois fica afinadinho. Elísio Pinheiro, ex-operário da Empresa Industrial de Chapelaria
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Turistas da Noruega: Anne-Lise e Helge Gorrisen
nós chamamos a enformadeira, que é uma máquina que tem umas garras que caça o chapéu e ali mete-se uma forma que começa já a dar o primeiro formato do chapéu(…) máquina era de puxar o chapéu e pôr na aba e por na forma(…) o chapéu vai para a máquina(…) que diz que é a Nossa Senhora de Fátima. Adalcino Salazar, ex-operário da empresa Vieira Araújo
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