sexta, 16 dezembro 2016 04:35

Irmandade de Nª Srª d’Ajuda promove culto Destaque

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Ondas da Serra esteve à conversa com António Costa, mais conhecido em Espinho por Sr. Freire e que exerce funções como tesoureiro da Irmandade de Nª Srª d’Ajuda. Este Espinhense antes de se reformar trabalhou na antiga fábrica "Fosforeira Nacional", numa agradável conversa explicou-nos que o nascimento desta cidade pode estar ligado às gentes vareiras de Ovar, em como a cidade adotou como sua padroeira a Nª Srª d’Ajuda, a festa e procissão em sua honra, o grande crescido que tem esta romaria tem tido e a recente tradição dos tapetes de flores.

Poderá contar-nos um pouco da história desta Irmandade.

A Irmandade foi constituída em 1886 para preservar o culto a Nª Srª d’Ajuda. Esta veneração já vem desde os primeiros ocupantes da praia de Espinho, que eram pescadores vareiros oriundos de Ovar. Estes homens do mar instalaram-se nesta terra para pescarem, utilizando as suas artes, principalmente a arte xávega que ainda hoje existe.

Antigo Cartaz das Festas

Essa gente vareira tinha uma grande devoção pela Nª Srª d’Ajuda, ainda hoje há uma imagem desta Santa na Capela de Santo António em Ovar. Atualmente os pescadores e as gentes vareiras que vivem mais na zona sul de Espinho, junto ao mar, continuam a ter grande devoção pela mesma. Este povo quando há festas em sua honra é muito participativo, assistem às cerimónias e incorporam-se na procissão.

Nesse local onde estão instalados os pescadores existe uma capela dedicada à Nª Srª do Mar. Os habitantes deste bairro piscatório contribuem entre si para financiar o andor desta Santa, que também integra a procissão de Nª Srª d’Ajuda.

Portanto a nossa padroeira e a sua devoção já vem desses tempos, finais do século XVII e princípios do século XIX. Fazendo uma comparação com o passado a procissão tem crescido bastante, a deste ano (2016) foi a que teve mais andores, no total de 34, desde o andor do padroeiro dos Bombeiros, da Polícia, dos Militares e um andor da Nª Srª d’Ajuda em bebé.

Temos também um andor em miniatura, com uma imagem do antigo pároco de Espinho, padre Zé Pedro. Este andor ocupa a trigésima quarto posição na procissão e é levado pelos meninos da catequese.

A devoção à esta Santa remonta ao ano de 1874 e iniciou-se talvez por devoção desses vareiros de Ovar numa capelinha que um galego mandou construir, chamada “Capela dos Galegos”, dedicada originalmente a Santa Rita. Mais tarde também por devoção a Nª Srª da Guia, essa capela foi destruída conforme consta de uma autodestruição. Nesse tempo quando se fazia uma capela nova e a antiga era destruída, tinha-se que elaborar este documento.

Desta forma foi então erguida uma capela dedicada a Nª Srª da Guia. Segundo uns textos antigos há uma lenda que conta que foi devido à intervenção dos vareiros de Ovar, que na altura pescavam nas nossas águas, que capela mudou nome de Nª Srª da Guia para Senhora d’Ajuda. Este facto consta nos livros antigos de Espinho e no texto do folheto de apoio ao nosso núcleo museológico.

Diz a lenda que um pai vendo seu filho naufragar ao largo da capela de Nª Srª da Guia, entrou na mesma e virou-se para a imagem que estava no altar e repetiu insistentemente “AJUDA MEU FILHO, AJUDA MEU FILHO”. Terce-a dado então o milagre da salvação, tendo a partir daí passado a devoção para a Nª Srª d’Ajuda. Isto é claro é uma lenda, há também quem diga que foram os pescadores de Ovar por grande devoção a Nª Srª d’Ajuda que trouxeram uma imagem para Espinho.

A capela estava muito perto da praia, Espinho começou a desenvolver-se a partir da praia para nascente. Naquele tempo muitas pessoas tinham o hábito de irem para as termas, mas a dada altura começaram também a ir para a praia, dando início ao que hoje se conhece por época balnear.

Espinho como disse começou a crescer a partir da praia, tínhamos o Largo de Nª Srª d’Ajuda, ainda hoje temos fotografias desse tempo, onde está o coreto e a capela atual. Com o avanço do mar essa capela foi derrubada em 1905. Os Espinhenses dessa altura ainda apostaram na construção de uma segunda capela que também foi derrubada em 1910.

Uma capela matriz foi construída no local conhecido na altura pelo lugar de Espinho. Pensou-se então em construir uma igreja numa zona mais alta a nascente de Espinho, onde pudesse estar a salvo das investidas do mar. Já nessa altura se fazia grande devoção e festa a Nª Srª d’Ajuda.

Enquanto a igreja matriz se estava a construir, todas as alfaias, imagens incluindo a da própria Santa, foram guardadas numa capelinha que existia acima da linha do comboio dedicada a Santa Maria Maior. A mesma pertencia aos Condes da Graciosa de São João de Ver, que com grande generosidade aceitaram instalar a Irmandade nessa capela.

A devoção à Sª d’Ajuda era tão grande que colocaram a imagem no trono em cima do altar e deslocaram a imagem de Santa Maria Maior para um altar lateral, situação que ainda hoje subsiste. Até aos nossos dias a devoção a Nª Srª d’Ajuda tem sido feita nesta capela de Santa Maria Maior.

Como é constituída a Irmandade e quais são as suas atribuições?

A Irmandade tem uma mesa administrativa composta por 7 pessoas, presentemente o seu Juiz é pároco de Espinho Padre Artur, uma secretaria, eu como tesoureiro, um procurador fiscal e 4 vogais.

A irmandade tem por incumbência zelar pelo templo que é esta capelinha e promover o culto a Nª Srª d’Ajuda. A sua promoção é efetuada através da organização de procissões durante todo o ano, no final do mês de maio realiza-se uma das velas com a imagem de Nª Srª de Fátima, que percorre as ruas entre a igreja matriz e esta capelinha, a procissão principal é efetuada no domingo da festa.

A festa realiza-se no terceiro domingo de setembro mas o dia da nossa padroeira é no segundo domingo, mas como há uma grande devoção popular nesta capelinha faz-se na mesma uma homenagem onde também se assinala o dia da paróquia. No segundo domingo e no terceiro domingo faz-se a festa popular nesta capelinha onde ela está instalada.

O Senhor há quanto tempo ajuda a Irmandade?

Eu estou na Irmandade à volta de uns 15 anos, embora já tenha feito parte anteriormente do seu grupo coral.

Quantas pessoas têm a Irmandade e qual a sua faixa etária?

A Irmandade é constituída por elementos na casa dos 40 até aos 80 anos, o padre é novo, o nosso anterior Juiz Padre Zé Pedro também era novo, o membro mais antigo tem cerca de 80 anos. Pode-se dizer que a maior parte das pessoas têm alguma idade, porque já têm também alguma disponibilidade para se dedicarem a estas tarefas.

Desde à sua entrada na Irmandade em termos religiosos notou algumas transformações no culto e devoção?

Antigo cartaz das festasSim notamos que a festa está a crescer muito, a devoção a Nª Srª d’Ajuda tem aumentado muito nos últimos anos. Nós também contribuímos para este sucesso, porque temos criado na capela boas condições para que a festa religiosa. Sim porque só posso falar nesta vertente porque a Irmandade só organiza o culto à Srª d’Ajuda e as procissões que já falei, as quais fazemos durante todo o ano e a procissão solene feita no dia da festa. 

É necessário frisar que antigamente os andores enfeitados estavam dentro da capela, a missa solene é realizada pela manhã às 11h00, sendo feita a procissão às 16h30 da tarde. Essa missa tem muita gente, mas o espaço não oferecia condições de comunidade e sonoras para que as pessoas pudessem estar atentas e assistir à missa com devoção.

O espaço também era reduzido pelo facto dos andores estarem no interior da capela é esta ser pequena, já que mesmo nessa altura já eram muitos andores, cerca de 20 ou 22. Isto levava as pessoas amontoarem-se e não terem condições. Para agravar o problema estavam montados dois coretos de música no adro da capela.

A partir do momento que se verificou o enterramento da linha férrea, os coretos passaram para alameda, que posso adiantar desde já, vai entrar brevemente em obras. E já que estamos a falar na alameda está previsto no projeto que vai arrancar no princípio do próximo ano, em frente à capela ser construída uma praceta denominada “Praceta de Nossa Senhora d’Ajuda”.

Estas obras vão permitir que a festa e todas as cerimónias em sua honra passam ainda mais para fora. Esta rua vai ser transformada numa zona pedonal, estando previsto que o acesso à capela se faça por uma escadaria.

Porque já era intenção do anterior pároco e também do atual, criarem aqui um pequeno templo de culto Mariano em contexto urbano. Já foram criadas algumas condições para esse efeito, como a deslocação dos coretos que já falei.

A missa campal no dia da festa já é feita na parte exterior, as pessoas já assistem à missa no adro e na rua em frente. O trânsito nestes dias é cortado em frente à capelinha por causa da missa e também por causa das ruas que são enfeitadas com tapetes de flores para a procissão da tarde passar.

Por isso é que eu digo que as festas têm crescido muito e tem trazido muita gente, neste último ano em 20 de Setembro, foram contados 36 autocarros com visitantes da zona da Feira, São João da Madeira, Vale de Cambra, Viseu, Sever do Vouga, Vouzela e São Pedro do Sul, que são gentes das terras do “Ondas da Serra”.

Já nos tempos antigos as gentes demandavam Espinho por causa das praias e hoje os seus herdeiros continuam a demandar pelos mesmos motivos, festa e praias.

Pegando nas suas palavras e no seguimento da conversa pode explicar em que consiste esta tradição dos tapetes de flores que enfeitam às ruas por onda passa a procissão.

Antigo cartaz das festasEsta tradição dos tapetes deve ter por volta de seis anos, foi também um juiz que já faleceu chamado Romeu Vitó, que foi presidente da câmara de Espinho, que a pedido duma comissão das festas profanas, que tem a responsabilidade de tratar da animação e dos concertos, que com o apoio da Irmandade realizaram os primeiros tapetes.

Hoje em dia esta tarefa passou a ser feita pela irmandade com ajuda de muitos voluntários, tendo a câmara por sua vez assumindo os seus custos. A autarquia nomeia uma comissão de festas para a devoção popular, carroceis, aluguer de espaços, farturas, bilhares, concertos, vendas diversas, deste orçamento é retirado alguma verba para os tapetes.

A autarquia reconheceu a importância do turismo religioso e que os tapetes chamavam muita gente a Espinho. Por isso é que eu tenho afirmado que a festa tem crescido muito. Relembrando o contributo da realização da missa campal no exterior no adro da capela que se estende até quase alameda e também os tapetes.

Tem ideia de quantas organizações e pessoas estão envolvidas na sua confeção?

Há um grupo em Espinho denominado “É Vida”, que é constituído por muitas senhoras voluntárias, que começam a fazer os tapetes no sábado durante a tarde e terminam já de madrugada, perto das seis ou sete da manhã de domingo.

Este grupo tem cerca de 200 voluntárias, que se dividem para fazerem as suas ruas, no total de seis correspondentes ao trajeto da procissão.

A nível das tradições soubemos que a Irmandade conseguir reativar uma tradição antiga que tinha sido perdida no tempo, a “Feira das Cebolas”, pode falar-nos um pouco de como isso aconteceu?

No século passara essa feira tinha uma grande tradição e realizava-se às segundas-feiras e até fazia parte do cartaz das festas, em conjunto com as bandas de música e fogo-de-artifício, tinha grande impacto. Os agricultores deslocam-se a esta feira para venderam as suas “resmas de cebolas”. Contudo durante uma determinada altura parou, contribuindo talvez para isso a abertura das grandes superfícies comerciais. Há três ou quatro anos que ajudamos a reativar esta tradição, sendo a mesma realizada em frente à capela na alameda, com participações significativas de público. A sua realização conta também com o apoio da comissão de festas.

A Irmandade possui planos ou projetos que gostariam de ver concretizados num futuro próximo?

Sim temos, por exemplo queremos fazer obras nesta capela de Santa Maria Maior, como diz o folheto de apoio ao núcleo museológico e que foi uma vontade do antigo juiz Romeu Vitó, já temos orçamentos para restaurar o seu interior, porque é um dos templos mais antigos de Espinho praia.

Era crença dos antigos habitantes que pelo facto desta capela estar relativamente próxima do mar, mas mais distante que as outras, já que se situa acima da linha do comboio, o mar nunca haveria de lá chegar.

Nos primeiros tempos de Espinho este era um local de palheiros de apoio às artes de pesca e os pescadores pernoitarem. Esta capela é uma das mais antigas como tal encontra-se bastante degradada, nos temos feito algumas melhorias, obras de conservação, mas não têm sido suficientes.

Este projeto contempla todo o restauro da capela, a cobertura superior e reabilitar todo o interior, feito em talha dourada, lacados, dourados e um mural pintado, chamado de fingido que imita a marmorite. No próximo ano iremos possivelmente arrancar com a cobertura e no ano seguinte fazer a reabilitação e restauro do interior. 

Quem quiser ajudar a Irmandade como voluntário ou contribuir para estas obras como o pode fazer?

Como já foi dito nos temos intenção de transformar a capela num templo Mariano de devoção à Nossa Senhora, dando-lhe maior dignidade e com a construção da praceta em frente de Nª Senhora d’Ajuda, porque alameda vai exigir também que nos façamos alguma coisa na capela.

A Irmandade aceita donativos e passamos os respetivos recibos para que as pessoas possam deduzir o seu valor no IRS, porque neste momento a única receita que temos é a da festa. Durante todo ano as esmolas que recebemos são praticamente para pagar as despesas correntes.

Nós temos algumas pessoas voluntárias que nos ajudam, um zelador da capela, uma pessoa que faz a limpeza e outra que faz os arranjos de flores. Claro que na altura da festa precisamos de mais ajuda porque não é fácil colocar 34 andores na rua.

Já pensaram utilizar as novas tecnologias da comunicação para tornar o vosso núcleo museológico interativo e mais interessante?

Agradecemos esta luz que nos está dar, mesmo esta ideia da criação do núcleo também nasceu por indicação de um dos nossos Juízes, Senhor Rebelo Vitó. Nessa altura fez-se obras de forma aumentar lateralmente a capela para colocar o lado sul igual ao do norte.

Esta ideia só foi possível de colocar em prática porque aparecem entretanto muitas peças antigas, alfaias, mantos antigos lindíssimos ornamentados a ouro, que valem uma fortuna, mantos antigos da Srª d’Ajuda que nos foram oferecidos.

Estes mantos são expostos durante a festa e alguns utlizados para vestir as imagens de Nª Srª da Guia, Santa Rita de Cáceres, Santa Maria Maior. Neste momento só é possível expor um no museu. Resta dizer que as entradas no museu atualmente são gratuitas os visitantes dão o que quiserem.

Obrigado pela sua colaboração, quer acrescentar mais algum assunto?

Nós é que agradecemos, quero recordar que nesta capela são realizadas aos domingos missa às 10h00 e de segunda-feira a sábado é rezado o terço às 15h00.

 

 

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Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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